05 março 2008

Diário Alice!? - Donda 1












Alice!?


05 de março de 2008.

Processo criativo coletivo, com direção forte. O desejo de montar “Alice no país das maravilhas” vem de um antigo processo que não vingou. Mas esse desejo não era só meu; Tácia também compartilhava da mesma frustração de não ter montado “Alice”. Um dia em minha casa Tácia e eu começamos a conversar sobre a possibilidade de montarmos “Alice” só nós dois como atores. Pensamos no Thiago para nos dirigir, imediatamente ligamos para ele, que topou. Eu sugeri uma adaptação que eu havia feito há um tempo, mas ninguém gostava desta adaptação. Então Thiago sugeriu que fizéssemos tal qual o livro, o original do Lewis Carroll. Tácia e eu aceitamos. Então ficou da seguinte forma: a idéia era montar “Alice” com dois atores, Tácia fazendo Alice e eu os outros personagens; Thiago também sugeriu que montássemos uma versão de “Alice” para rua com caráter de intervenção, já que é nisto que empenhamos nossa pesquisa. Começamos o nosso processo num quartinho nos fundos da casa do Thiago com uma preparação corporal e esboços de algumas cenas, isso era agosto de 2006. Começamos a perceber que precisaríamos de um contra-regra, então Thiago convidou Isaac para nos auxiliar. Sendo que o envolvimento de Isaac foi de imediato e de grandes proporções. Eu particularmente nunca havia visto Isaac tão envolvido com um espetáculo, dava prazer em vê-lo tão empenhado; logo a idéia era montar “Alice” com três atores. Convidamos o Pablo para fazer a produção do espetáculo um grande desafio, a meu ver, posto que não houvesse projeto nenhum escrito só havia nossa vontade de montar. Neste momento sentimos falta de mais espaço. Então começamos a ensaiar no Cenart, que foi nosso apoiador. Após dois meses ensaiando lá, mais uma vez sentimos falta de contra-regras, convidamos a Mari, o Magnun e a Laís, que aceitaram o convite, para a Laís foi mais que um convite de participar do espetáculo, isto também implicava na sua entrada e participação na Cia. do Chapéu. O envolvimento dos três com a peça nos fez, novamente mudar a idéia da quantidade de atores, que agora já era de seis. Mesmo assim havia uma espécie de hierarquia, onde quem estava a mais tempo no processo dava conta de mais personagens e quem estava há menos tempo, por sua vez se responsabilizaria por fazer a contra-regragem e personagens menores. Foi aí que surgiu a proposta de que com o passar do tempo todos os atores estivessem aptos a fazer qualquer personagem, que é uma idéia que muito me agrada. Com o passar dos ensaios a nossa construção ficava cada vez mais clara e a proposta do Thiago também. Tácia como Alice; Isaac como Dinná, Lagarta, Duquesa e Lebre de Março; Eu como Coelho, Gato de Cheshire, Chapeleiro Maluco e a Rainha; Mari, Magnun e Laís como os jardineiros da Rainha; todos que no momento das cenas estivessem sem nenhum destes personagens automaticamente estariam representando os “Sonhos”, que eram os contra-regras que não saiam de cena. Em paralelo aos ensaios comecei a ajudar Tácia e Isaac na confecção dos figurinos, adereços e cenário. Tinha a idéia de que os figurinos e adereços não passassem de signos que representassem os personagens, marcassem características. Ficou decidido que existiria uma roupa básica que todos usariam, em primeiro lugar pensamos em roupas brancas destas que se usam em academias, mas depois pensamos numa malha branca com bordados em lã que formavam espirais e caminhos. No cenário pensamos em um tapete verde que cobrisse todo o procênio e duas cortinas, uma branca e uma de plástico transparente. Usamos tanto nos figurinos e adereços quanto no cenário, plástico e retalhos de tecido, o que mantinha uma unidade. Fizemos da sala da casa do Isaac de atelier, passamos madrugadas a costurar flores de tulli e colar flores de retalho na cortina de plástico. A cortina branca nos servia, principalmente para serem realizadas as projeções dos desenhos feitos pelo artista plástico e nosso amigo Pedro Lucena. Marcamos a estréia e a primeira temporada para final de junho e julho no Centro Cultural do SESI. Como divulgação, pensamos em atingir várias mídias, cartazes, panfletos, Outdoor, tevê e rádio. Mas só fizemos cartazes e panfletos, acredito que o que tenha ocorrido para dificultar a aquisição das outras mídias tenha sido o fato de não termos um projeto pronto com a antecedência necessária para a captação não só de recursos, mas também a de apoios. Mesmo assim, pude considerar a primeira temporada um sucesso de público, haja vista que tivemos todos os dias quase que o teatro lotado, restando poucos lugares vazios. Nesta primeira temporada ficamos muito felizes com o publico que tivemos, mas também foi uma temporada de acertos e ajustes. Tivemos um problema sério com nosso cenário. O suporte para as cortinas que havíamos feito não conseguiu se adequar com a falta de estrutura física do teatro do SESI e quatro das seis apresentações da primeira temporada foi feitas com ajustes precários para o funcionamento destas cortinas. O que ocorria era que a vara de cenário do teatro era feita de madeira muito finas, que não suportavam nossos cabos de aço esticados e envergavam. Solucionamos depois de um acerto feito com o SESI, para perfurarmos as paredes das coxias e assim esticarmos nossos cabos. Na segunda temporada, agora percebo, que nem deveria ter havido, pelo menos não da maneira que aconteceu. No termino a primeira temporada, fomos assaltados e perdemos quase que todo o dinheiro ganho com as apresentações. Então, precipitadamente, decidimos fazer uma segunda temporada em agosto, no mesmo teatro, na tentativa de reaver o dinheiro roubado, pois ainda precisávamos pagar a pauta do teatro e outros serviços, como: a arte gráfica, feita pela nossa amiga Renata Voss (parceria com o Urucum Studio), os desenhos do Pedro Lucena, usados nas projeções, e o Glauber Xavier (Saudáveis Subversivos), que nos alugou o data-show. Não tivemos o mesmo público que tivemos na primeira temporada, não houve o mesmo tempo de divulgação. Após a segunda temporada, planejamos mais uma temporada para outubro, na tentativa de obtermos o público infantil, mas uma vez não tivemos o público desejado, talvez por causa da grande quantidade de espetáculos ocorrendo no mesmo período, somado a isso o fato de que “Alice!?” não ser propriamente dito um espetáculo infantil. Logo em seguida a essa temporada foi exposto pelo Isaac e por mim o fato que estaríamos indo embora de Maceió no final de março de 2008. O que aceleraria o processo de substituições dos personagens que fazíamos, mas em dezembro de 2007, demovo-me do meu plano de ir para o Rio de Janeiro e decido ficar em Maceió. Quanto a Isaac, confirma-se o seu plano de ir embora, então se inicia o processo de substituição dos personagens já para a temporada de março de 2008, no teatro do SESC. O fato de Isaac ser substituído já para essa temporada o deixou chocado, mas acredito se faça necessário esse processo de transição, uma vez que não existe tempo hábil para ensaiarmos tanto Isaac quanto Laís e Magnun para as cenas que eles os substituíram. Sempre comentei que esse processo de transição e troca dos atores para os personagens deveria ter começado, entendo em parte o que Isaac sente em ser substituído, mas é preciso evitar a vaidade para que a peça transcorra da melhor forma possível, isso iria acontecer nós estando aqui ou não. Dentre meus personagens o único que eu gostaria de manter por enquanto é o Chapeleiro, acredito não ter descoberto artifícios, formas e modos suficientes para me sentir satisfeito com minha construção, não que nos outros personagens eu ainda não descubra novos estímulos que façam a Rainha, o Gato e o Coelho crescerem ainda mais. Mas sinto que o Chapeleiro é ainda meu maior desafio em cena, na sua concepção, na possibilidade de jogo e na relação com os outros atores em cena jogando com seus personagens. Thiago certa vez nos perguntou como nos vemos no processo, desde então eu reflito sobre essa indagação. Desde o processo de Não Tenho Palavras
[1], que me questiono quanto ao meu trabalho e minha postura dentro dos processos que participo e ter conversado com Flavio Rabelo, Thiago Sampaio, Jorge Schurtze e Coco Maldonado aumentaram ainda mais minhas dúvidas. Mas no processo de Não tenho Palavras percebi uma característica do meu trabalho: não encaro personagem como algo aparte do ator, na é algo que está pré-concebido e pré-construído do qual o ator se apropria, mas que essa relação do ator com personagem se trata de um jogo permanente de descoberta e possibilidades de manuseio, no sentido manipulação de energias potenciais. Levei essa consciência para o processo de “Alice!?” que se dá de uma forma, que particularmente eu gosto muito, ter a possibilidade de trabalhar meu corpo antes mesmo de ter um texto, construir os personagens em paralelo a essa preparação corporal e uma dramaturgia que parte apenas das leituras do original e das improvisações das cenas feitas por nós é sem dúvida possibilitar para o ator uma liberdade criativa fundamental para a arte. Diante disto, posso dizer que meu sistema de criação corresponde à criação do espetáculo e não somente a dos personagens, em específico neste processo, visto que os personagens e suas características pra existem na obra do Lewis Carroll, o que fiz foi apenas dar corpo e vida a eles. E de que forma? A preparação corporal proposta pelo Thiago era específica para o espetáculo, o que facilita bastante, então meu corpo estava pronto para experimentar as mais diversas características dos personagens. Para o personagem do Coelho eu tinha os dados dele ser subserviente, atrapalhado e apressado, a mais dificuldade para mim nesse personagem foi descobrir meus objetivos com ele em cena e passei um bom tempo buscando esses objetivos, mas preferi, depois de um tempo, executar mecanicamente a cena e nela encontrar ecos que me servissem com objetivos e funcionou. O Gato de Cheshire foi o personagem com o qual eu tive maior facilidade, por que o jogo proposto pelo Thiago para a cena era muito interessante e as características do gato dadas por Carroll são muito particulares, o cinismo, o sarcasmo e total indiferença a atual situação de Alice!? e meus objetivos com o gato eram bem claros: brincar, confundir indicar caminhos. Com Chapeleiro tive grandes dificuldades e a principal delas foi meu comodismo e indisciplina. Conversando com o Thiago acerca do Chapeleiro e as dúvidas que eu tinha com esse personagem de como devia jogar com ele em cena, Thiago me disse que eu poderia deixar esse personagem mais próximo do que sou, foi o que minha preguiça precisava para eu largar esse personagem de lado e me preocupar só com os outros. O que não era justificativa. Mesmo ele sendo ao parecido comigo eu deveria ficar atento a todas essas características e ainda mais por serem tão próprias, agora não posso dizer que o personagem está no mesmo nível dos outros, mas estou num processo de busca de objetivos em cena. Para a Rainha havia a idéia que ela tivesse muitas personalidades, mas eu comecei a achar que havia muito pouco tempo para tantas personalidades, então preferi deixá-la num estado de surto onde ela pudesse oscilar de humor. E por ultimo tem o Sonho que minha única preocupação com este, foi estar atento e presente. Durante todo o espetáculo procuro em cena me manter atento, presente e atuante vez por outra ainda perco, mas isso tem melhorado com o passar das apresentações, faço questão de deixar claro que estou jogando com os personagens e que sou sempre eu em cena, Jonatha, vivo e atento. Realizo o gato como um joguete, não sou o Gato de Cheshire, nem ele é uma entidade que incorpore em mim, o personagem tem como função dá estimulo me dá estimulo, me fazer pensar e agir como se fosse outro, mais ainda assim: “se eu fosse o Gato de Cheshire...”, esse é o pensamento que me cerca em cena. Em alguns momentos fico irritado quando percebo que não estamos nos ouvindo nem nos vendo. Perdem-se muito quando não se é generoso ou desatento em cena, devemos está sempre presentes e cientes que não estamos sós, que tudo pode ser estimulo e matéria para criação, trabalhamos com o processo aberto, a criação também pode acontecer em cena, na apresentação, nela contamos com algo que não temos nos ensaios: o público, que não pode ser levado como agente passivo da apresentação. Quando negamos quaisquer estimulo em cena, assumimos um erro que poderia nem ter havido, quando transformarmos este estimulo em matéria criativa temos espontaneidade, temos vida. Agora estamos às vésperas da quarta temporada, tendo problemas com a confecção dos panfletos, mas estou confiante que será uma temporada importante para o grupo.


[1] Espetáculo realizado em duas edições pela Associação Artística Saudáveis Subversivos, nos anos de 2005 e 2006.




Jonatha Albuquerque